Arquivo da categoria ‘Violência’

Para iniciarmos nossas discussões que buscará tratar o fenômeno da violência e  criminalidade de uma forma reflexiva e que contribua para  compreendermos a devida profundidade desse tema e assim qualificar e expandir os nossos conhecimento sobre o mesmo  iniciaremos com  uma simples questão :  A sociedade em que vivemos hoje é mais ou menos violenta do que no passado ? Antes de apresentar constatações óbvias e que reproduzem o discurso amplamente difundido pela mídia  assista o vídeo abaixo que busca tratar de uma forma inusitada com essa questão .

O vídeo acima dialoga com dois autores da sociologia que analisam profundamente como a questão da violência e da criminalidade ao longo da história da humanidade. O primeiro foi Norbert Elias que em sua obra “O Processo Civilizador” analisou como nossa sociedade com o passar dos séculos  veio  sofrendo um movimento de constante “humanização” em busca da tentativa da superação dos instintos  no intuito de obter o que o autor denominou de  boas maneiras resultando assim  em uma sociedade onde optamos pelo diálogo e a lei em detrimento da violência e a justiça sumária (feita com as próprias mãos ), sua obra é repleta de exemplos que nos faz compreender como seria  insuportável para uma pessoa educada em nossos dias viverem a cem  ou duzentos anos atrás, apontando  como o conceito do que é sociamente aceito mudou profundamente ao longo de nossa história .    .

O segundo autor foi Michael Foucault o qual analisou como a violência ao longo de  nossa história foi sendo deixada de lado na hora de punirmos os que cometem crimes . No início de sua Obra  “Vigiar e Punir” o autor descreve com grande riqueza de detalhes o suplício de um condenado no séc. XVIII, que assim como Cristo e Tiradentes , teve sua condenação executada em praça pública para o deleite de toda a população , inclusive crianças , em uma cena que se alguém de nossa época presenciasse certamente  iria julgar aquela sociedade como desumana e barbara . Em seguida Foucault descreve a rotina de um presídio no séc. XIX a qual os detento são submetidos a pena de privação de liberdade, onde para pagar pelos seus crimes são confinados em casas de reclusão sobre um regime de grande disciplina . Toda a obra pretende analisar o que levou a tais mudanças de comportamento frente aos criminosos durante esse curto período de tempo .

 

Violência

 

O que é violência? Segundo o Dicionário Houaiss, violência é a “ação ou efeito de violentar, de empregar força física (contra alguém ou algo) ou intimidação moral contra (alguém); ato violento, crueldade, força”. No aspecto jurídico, o mesmo dicionário define o termo como o “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação”.

Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) define violência como “a imposição de um grau significativo de dor e sofrimento evitáveis”. Mas os especialistas afirmam que o conceito é muito mais amplo e ambíguo do que essa mera constatação de que a violência é a imposição de dor, a agressão cometida por uma pessoa contra outra; mesmo porque a dor é um conceito muito difícil de ser definido.

Para todos os efeitos, guerra, fome, tortura, assassinato, preconceito, a violência se manifesta de várias maneiras. Na comunidade internacional de direitos humanos, a violência é compreendida como todas as violações dos direitos civis (vida, propriedade, liberdade de ir e vir, de consciência e de culto); políticos (direito a votar e a ser votado, ter participação política); sociais (habitação, saúde, educação, segurança); econômicos (emprego e salário) e culturais (direito de manter e manifestar sua própria cultura). As formas de violência, tipificadas como violação da lei penal, como assassinato, seqüestros, roubos e outros tipos de crime contra a pessoa ou contra o patrimônio, formam um conjunto que se convencionou chamar de violência urbana, porque se manifesta principalmente no espaço das grandes cidades. Não é possível deixar de lado, no entanto, as diferentes formas de violência existentes no campo.

O vídeo  abaixo apresenta de forma clara como em nossas ações cotidianas podemos alimentar ou romper com um ciclo de pequenas violências que podem ter como consequência  violências maiores.

 

Tipos de Violência

Violência é todas as ações que machucam as pessoas de alguma forma,sendo com palavras,agressões e injustiças da sociedade.Todos temos direito de sermos livres de qualquer tipo de violência,porém ainda existem pessoas que sofrem com isso.

Violência Simbólica

No campo simbólico, constituído por maneiras de ver e de pensar, dá-se a produção social da violência simbólica. Bourdieu assim a define: “A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cumplicidade tácita daqueles que a sofrem e também, frequentemente, daqueles que a exercem na medida em que uns e outros são inconsciente de a exercer ou a sofrer” (Bourdieu, 1996: 16).  O que denomino de violência simbólica ou dominação simbólica, ou seja, formas de coerção que se baseiam em acordos não conscientes entre as estruturas objetivas e as estruturas mentais” (Bourdieu, 2012: 239).

 Violência Estrutural e Sistêmica: Ela se expressa pelo quadro de miséria, má distribuição de renda ,exploração dos trabalhadores,crianças nas ruas,falta de condições mínimas para vida digna,falta de assistência em educação e saúde.Trata-se,portanto,de uma população de risco,sofrendo no dia-a-dia os efeitos da violação dos direitos humanos,confirmando as palavras de Mahatma Gandhi: a pobreza é a pior forma de violência. Apesar desse tipo de violência acontecer os presos ainda saem impunes do crime.

 

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Teorias Biológicas Sobre o Crime

Publicado: maio 9, 2012 em Violência

O CRIME SEGUNDO LOMBROSO (Texto complementar)

agosto 20, 2007

Cesare Lombroso (1835-1909) foi um homem polifacético; médico, psiquiatra, antropólogo e político, sua extensa obra abarca temas médicos (“Medicina Legal”), psiquiátricos (“Os avanços da Psiquiatria”), psicológicos (“O gênio e a loucura”), demográficos (“Geografia Médica”), criminológicos (“L’Uomo delincuente).

Lombroso entende o crime como um fato real, que perpassa todas as épocas históricas, natural e não como uma fictícia abstração jurídica. Como fenômeno natural que é, o crime tem que ser estudado primacialmente em sua etiologia, isto é, a identificação das suas causas como fenômeno, de modo a se poder combatê-lo em sua própria raiz, com eficácia, com programas de prevenção realistas e científicos.

Para Lombroso a etiologia do crime é eminentemente individual e deve ser buscada no estudo do delinqüente. É dentro da própria natureza humana que se pode descobrir a causa dos delitos.

Lombroso parte da idéia da idéia da completa desigualdade fundamental dos homens honestos e criminosos. Preocupado em encontrar no organismo humano traços diferenciais que separassem e singularizassem o criminoso, Lombroso vai extrair da autópsia de delinqüentes uma “grande série de anomalias atávicas, sobretudo uma enorme fosseta occipital média e uma hipertrofia do lóbulo cerebeloso mediano (vermis) análoga a que se encontra nos seres inferiores” .

Assim, surgiu a hipótese, sujeita a investigações posteriores, de que haveria certas afinidades entre o criminoso, os animais e principalmente o homem primitivo, que ele considerava diferente, psicológica e fisicamente, do homem dos nossos tempos.

Lombroso empreende um longo estudo antropológico no seu livro “L’Uomo delincuente” acerca da origem da criminalidade. Professando um particular evolucionismo, Lombroso procura demonstrar que o crime, como realidade ontológica, pode ser considerado uma característica que é comum a todos os degraus da escala da evolução, das plantas aos animais e aos homens; dos povos primitivos aos povos civilizados; da criança ao homem desenvolvido.

O “crime” teria como característica ser extremamente freqüente, brutal, violento e passional nos níveis inferiores dessas escalas.Assim Lombroso vai teorizar acerca dos equivalentes do crime nas plantas e nos animais (“L’Homme Criminel, chapitre premier), a morte de insetos pelas plantas carnívoras (“homicídio”), a morte para ter o comando da tribo entre os cavalos, cervos e touros (“homicídio por ambição”), a fêmea do crocodilo que mata seus filhotes que ainda não sabem nadar (“infanticídio”), as raposas que se devoram entre si e algumas vezes mesmo devoram suas progênitoras (“canibalismo e parricídio”).

Entre os chamados “selvagens” ou “povos primitivos” Lombroso também encontra a incidência generalizada do crime. O incremento excessivo da população, comparativamente aos meios naturais de subsistência explicaria os abortos e os infanticídios. São também comuns e frequentes segundo Lombroso o homicídio dos velhos, das mulheres, dos doentes, os homicídios por cólera, por capricho, de parentes por ocasião do funeral de morto importante, por sacrifícios religiosos, os cometidos por brutalidade ou por motivo fútil, os causados por desejo de glória etc..São ainda comuns entre os selvagens o canibalismo, o roubo, o rapto, o adultério e os crimes contra a autoridade (chefes, deuses ou a própria tribo).

Dentro da idéia evolucionista lombosiana (de passagem [física ou psíquica] do organismo mais simples para o mais complexo) os germes da loucura moral e do crime se encontram de maneira normal na infância.Lombroso advogava a existência na infância de uma predisposição natural para o crime. As analogias entre o imaturo e o criminoso se dariam na fase da vida instintiva, através da qual se observa a precocidade da cólera, que faz com que a criança bata nos circunstantes e tudo quebre, em atitudes comparáveis ao compartamento violento criminoso.

O ciúme, a vingança, a mentira, o desejo de destruição, a maldade para com os animais e os seres fracos, a predisposição para a obscenidade, a preguiça completa, exceto para as atividades que produzem prazer, são, entre outros, índices que Lombroso apontou, das tendências criminais na infância. A educação conduziria, porém, a criança para o período de “puberdade ética”, submetendo-a a profunda metamorfose.

Identificando pois a origem da criminalidade, como ontologia, nessas “fases primitivas” da humanidade, Lombroso entende que o criminoso é uma subespécie ou um subtipo humano (entre os seres vivos superiores, porém sem alcançar o nível superior do homo sapiens) que, por uma regressão atávica a essas fases primitivas, nasceria criminoso, como outros nascem loucos ou doentios. A herança atávica explicaria, a seu ver, a causa dos delitos. O criminoso seria então um delinqüente nato (nascido para o crime), um ser degenerado, atávico, marcado pela transmissão hereditária do mal. O atavismo (produto da regressão, não da evolução das espécies) do criminoso seria demonstrado por uma série de “estigmas”. De acordo com o seu ponto de vista, o delinqüente padece de uma série de estigmas degenerativos, comportamentais, psicológicos e sociais.

O criminoso nato seria caracterizado por uma cabeça sui generis, com pronunciada assimetria craniana, fronte baixa e fugídia, orelhas em forma de asa, zigomas, lóbulos occipitais e arcadas superciliares salientes, maxilares proeminentes (prognatismo), face longa e larga, apesar do crânio pequeno, cabelos abundantes, mas barba escassa, rosto pálido.

O homem criminoso estaria assinalado por uma particular insensibilidade, não só física como psíquica, com profundo embotamento da receptividade dolorífica (analgesia) e do senso moral. Como anomalias fisiológicas, ainda, o mancinismo (uso preferente da mão esquerda) ou a ambidextria (uso indiferente das duas mãos), além da disvulnerabilidade, ou seja uma extraordinária resistência aos golpes e ferimentos graves ou mortais, de que os delinqüentes típicos pronta e facilmente se restabeleceriam. Seriam ainda comuns, entre eles, certos distúrbios dos sentidos e o mau funcionamento dos reflexos vasomotores, acarretando a ausência de enrubescimento da face. Consequência do enfraquecimento da sensibilidade dolorífica no criminoso por herança seria a sua inclinação à tatuagem, acerca da qual Lombroso realizou detidos estudos.

Os estigmas psicológicos seriam a atrofia do senso moral, a imprevidência e a vaidade dos grandes criminosos. Assim, os desvios da contextura psíquica e sentimental explicariam no criminoso a ausência do temor da pena, do remorso e mesmo da emoção do homicida perante os despojos da vítima. Absorvidos pelas paixões inferiores, nenhuma relutância eles sentem perante a idéia dominante do crime . As conclusões de Lombroso (L’Homme Criminel) foram construções eminentemente empíricas baseadas em resultados de 386 autópsias de delinqüentes e nos estudos feitos em 3939 criminosos vivos por Ferri, Bischoff, Bonn, Corre, Biliakow, Troyski, Lacassagne e pelo próprio Lombroso .

Lombroso porém não esgota na teoria da criminalidade nata a sua explicação para a etiologia do delito. A criminalidade nata não dá conta de todas as categorias antropológicas de delinqüentes, nem mesmo, numa mesma categoria, de todos os casos habituais. Ele antevê na loucura moral e na epilepsia mais dois fatores capazes de fornecer uma elucidação biológica para o fenômeno delito.

O louco moral é aquele indivíduo que tem, aparentemente, íntegra a sua inteligência, mas sofre de profunda falta de senso moral. É um homem perigoso pelo seu terrível egoísmo. É capaz de praticar um morticínio pelo mais ínfimo dos motivos.Lombroso o diferenciava do alienado definindo-o como um “cretino do senso moral” ou seja, uma pessoa desprovida absolutamente de senso moral. A explicação da criminalidade do louco moral também é dada pela biologia, é congênita, mas pode, de acordo com o meio na qual o indivíduo se desenvolve, aflorar ou não. A epilepsia foi outra explicação aventada por Lombroso como causa da criminalidade. A epilepsia ataca os centros nervosos em que se elaboram os sentimentos e as emoções. Objetaram-lhe porém que se a epilepsia, bem conhecida e perceptível, explica em certos casos o delito, em outros não se observa haver sinal objetivo da doença em face do delito praticado.A essa objeção Lombroso opôs a sua teoria da epilepsia larvada, sem manifestações facilmente visíveis, que poderia explicar a etiologia do delito. Ao passo que a epilepsia declarada se exterioriza em meio a contrações musculares violentíssimas, a epilepsia larvada se denuncia por fugazes estados de inconsciência que nem todos percebem.Lombroso não abandonou uma das explicações da etiologia do delito pelas outras. Procurou coordená-las. Assim, por exemplo, acentuou que a teoria do atavismo se completava e se corrigia com os estudos referentes ao estado epilético.A etiologia do crime para Lombroso interrelaciona portanto o atavismo, a loucura moral e a epilepsia: o criminoso nato é um ser inferior, atávico, que não evolucionou, igual a uma criança ou a um louco moral, que ainda necessita de uma abertura ao mundo dos valores; é um indivíduo que, ademais, sofre alguma forma de epilepsia, com suas correspondentes lesões cerebrais .

Lombroso, baseado em suas observações, encarava o seu tipo primordial de criminoso, o criminoso nato, como compondo 40 % do total da população criminosa, restando as demais àquelas outras formas de crime que tinham por fontes a loucura, a ocasião, o alcolismo e a paixão. Para Lombroso essas formas eram ligadas mais estreitamente a suas causas ocasionais e portanto, não forneceriam uma base possível para uma etiologia desses delitos. 

MAURICIO JORGE PEREIRA DA MOTA – Trabalho de conclusão de curso apresentado na disciplina de Direito Penal do Mestrado em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

Fonte: http://criminologiafla.wordpress.com/category/material-de-aula/

Sociologia do Crime

Publicado: maio 9, 2012 em Violência

DESVIO SOCIAL

1) Introdução

Ocorre desvio social quando o indivíduo ou grupo não corresponde às normas de uma determinada cultura.

Seria ótimo se vivêssemos em uma sociedade em que todas as pessoas cumprissem o seu papel da melhor forma possível, mas, infelizmente, essa sociedade não existe. Em todo lugar existem casos de roubo, assassinato, estupro e outras deturpações da conduta humana com as quais, direta ou indiretamente, somos obrigados a conviver.

Uma questão em aberto é saber por que as pessoas se desviam de um comportamento estabelecido em uma sociedade. No início, pensava-se que o desvio era fruto de uma anomalia psicológica e, partindo dessa premissa, a causa era individual. Depois, apareceram outros estudiosos que diagnosticaram o problema como sendo uma desordem social que induzia o indivíduo ao desvio. Hoje, chegou-se à conclusão de que o desvio se deve a fatores psicológicos e sociológicos, estudados por uma disciplina chamada Psicologia Social.

O conceito de desvio social normalmente possui uma conotação negativa, mas há casos em que o desvio pode ser visto como um ato positivo, como veremos no transcorrer desta unidade. Por outro lado, a noção de o que constitui um desvio social muda com o tempo.

Como exemplo disso, podemos citar o fato de que durante séculos, no Brasil, a prática de criar passarinhos em cativeiro (gaiolas) era algo comum e amplamente aceito, mas hoje, com a gravidade da questão ecológica, constitui crime ambiental. Atualmente é de todo aceitável a idéia de que se o casamento não deu certo as pessoas têm todo o direito de se separar; entretanto, há cerca de 40 anos pessoas separadas matrimonialmente não eram vistas com bons olhos, principalmente as mulheres.

2) Tipos de desvio

Desvio primário: Todos nós praticamos pequenos atos que não são totalmente aprovados pela sociedade.

O departamento de trânsito estabelece uma velocidade máxima, mas, às vezes, nos atrasamos para um compromisso e desobedecemos a essa norma.

Existe lei municipal que proíbe pisar na grama de jardins públicos, mas, para encurtar o caminho e ganhar tempo, avançamos sobre o gramado.

No estádio de futebol, como em outros locais públicos, deve-se jogar o lixo no local apropriado; porém, por comodidade, não observamos essa regra e jogamos no chão a garrafa plástica do refrigerante que acabamos de beber, ou, pior, há quem a arremesse na cabeça do torcedor adversário.

A lei proíbe que um funcionário se aproprie de qualquer material que pertença a uma repartição do governo. Mas você costuma ver funcionários públicos comprando papel A-4 ou caneta comum?

Sobre desvio primário é importante entender duas coisas: em primeiro lugar, a sociedade os tolera e não rotula seus praticantes como “desviados socialmente”; e, em segundo lugar, essas pessoas não se enxergam como anormais, que maculam a sociedade.

Desvio secundário: Denomina-se assim qualquer comportamento que é caracterizado publicamente como conduta anormal. O assassino, o ladrão, o político corrupto, o estuprador e o traficante de drogas são exemplos de desvio secundário.

O desvio secundário é repudiado socialmente, e uma vez a pessoa rotulada como tal, sofrerá pressões que normalmente a levam ao isolamento. Você já deve ter ouvido falar de casos de ex-presidiários que não conseguem arranjar emprego e levar uma vida normal. Isso acontece porque as pessoas não acreditam que o tempo que ele passou na cadeia foi suficiente para reeducá-lo para um novo estilo de vida.

Desvio individual: É quando uma pessoa, agindo sozinha, pratica ato que foge dos padrões estabelecidos pela sua subcultura. Imagine um médico famoso, com ótima situação financeira, mas que entediado pela rotina de sua profissão, resolve ingressar no mundo do crime em busca de aventuras. Este não é o comportamento normal de todos os médicos bem sucedidos. No caso do nosso exemplo, o médico famoso desviou-se do padrão de comportamento de seu grupo e adotou outra conduta. O mesmo pode-se dizer do adolescente de classe média alta que estuda no melhor colégio da cidade, anda em um carro esportivo, freqüenta as melhores festas e, sem nenhuma explicação lógica, resolve ingressar em um grupo de traficantes de drogas.

Desvio grupal: Um jovem vive na pior favela da cidade. Freqüentou escola pública decadente e não consegue arrumar emprego. Ele e seus amigos se consideram injustiçados pelo sistema e começam a renegar alguns valores básicos que lhes foram ensinados, como o de não roubar. No começo ele e os colegas se contentam apenas em pichar muros e cometer pequenos roubos, mas com o tempo os delitos passam a ser mais graves e por fim sua turma começa a roubar carros. Esse é um exemplo claro de desvio grupal, em que as condições desfavoráveis de uma comunidade não determinam, mas influenciam na conduta de seus membros.

3) Explicações teóricas para o desvio social

Ao longo dos últimos 100 anos vários estudos foram realizados para tentar determinar as causas dos desvios sociais. Alguns cientistas acreditam que o desvio está diretamente ligado a fatores biológicos e que se pode determinar previamente se uma pessoa terá tendência para o desvio apenas observando características do seu biotipo, tais como formato da cabeça, queixo, tamanho da testa, peso e outras. Há também os que procuram encontrar as causas do comportamento inadequado nas falhas de socialização do indivíduo.

A seguir apresentaremos as principais teorias que tentam explicar o problema.

a) Teorias biológicas

Teoria de Cesare Lombroso: Lombroso foi um criminólogo italiano que, no início do século XX, se interessou em estudar a relação entre as características físicas e a predisposição para o crime. Baseado em suas observações, Lombroso chegou à conclusão de que o criminoso apresenta uma certa semelhança com os ancestrais humanos (homens da caverna), tais como mandíbulas grandes, braços e dedos longos, alguma particularidade nos olhos, dentição anormal e ossos malares grandes. Inicialmente a teoria de Lombroso provocou um grande impacto, mas estudos posteriores não conseguiram provar a vinculação entre crime e tipo físico.

Teoria de William Sheldon: Antropólogo americano que identificou três tipos básicos de corpo: o endomorfo (redondo, mole e gordo), o mesomorfo (muscular e atlético) e o ectomorfo (magro, frágil e ossudo). Segundo Sheldon, os endomorfos são amigáveis e pacientes, os ectomorfos são sensíveis e um tanto quanto desligados e os mesomorfos seriam o tipo com maior predisposição para o crime, por tenderem a ser impulsivos, enérgicos e nervosos. Ainda que bem estruturados, os estudos de Sheldon não encontram respaldo na comunidade científica.

b) Teorias sociológicas

Teoria de Durkheim: Para este grande estudioso, o desvio social se deve ao que ele chamou de anomia. Para ele, anomia é a incapacidade de internalizar as normas de uma sociedade. Ao pé da letra, anomia significa ausência de normas.

Para melhor entender o que Durkheim afirma sobre anomia, vamos pegar o exemplo de uma pessoa que vivia em uma pequena comunidade agrícola do interior. Em sua aldeia, esta pessoa estava fortemente vinculada aos laços familiares e respeitava os preceitos pregados por sua religião. A comunidade era pequena e todos se conheciam, o que facilitava a identificação e controle que uns exerciam sobre os outros. Resumindo, podemos dizer que essa pessoa estava fortemente ligada a suas raízes e isso era importante para mantê-la ajustada socialmente.

Agora vamos imaginar que essa pessoa se mude para uma grande cidade em busca de melhor emprego. Logo perceberá que na grande cidade sua liberdade individual é maior por não ter que se submeter à pressão da família, da igreja, dos amigos e dos vizinhos. Ele não será mais obrigado a fazer algo apenas porque é uma tradição.

Porém, apesar de livre e morar em uma cidade com milhões de pessoas, ele se sente só, amargurado e revoltado por trabalhar muito e ganhar pouco. Este novo contexto o faz reformular alguns conceitos e ele já não acha tão errado uma pessoa furtar para sobreviver. Ingressa em um movimento político radical e está disposto a fazer tudo para impor o que acha ser o modelo ideal de sociedade.

Segundo Durkheim, essa pessoa está com anomia. Isto não quer dizer que, para esse pensador, as grandes cidades não possuem normas. Elas as possuem. O problema aparece quando as normas não são suficientemente internalizadas na personalidade do indivíduo, provocando o desajuste. O fato é que as modernas estatísticas confirmam que as grandes cidades e as áreas de rápidas mudanças são as que estão mais sujeitas à anomia e ao desvio social.

Teoria de William Thomas: Este estudioso elaborou uma teoria relacionada com a conformidade e a não conformidade dentro de uma sociedade humana. Como forma de melhor explicar suas idéias, ele apresenta três tipos de personalidades: Filisteu, Boêmio e Homem Criador.

O Filisteu é o bom cidadão, que está plenamente de acordo com os valores da sociedade; é um conformista por excelência. O Boêmio seria o oposto, com uma personalidade complicada, insegura e facilmente tentada a tomar atitudes anti-sociais. A terceira possibilidade seria denominada de Homem Criador, um meio termo entre os dois tipos anteriores. O Homem Criador seria conformista em algumas situações e rebelde em outras.

A conclusão a que se chega é que tanto o Filisteu como o Boêmio são tipos sociais inadequados. Uma vez que não existe sociedade perfeita, sempre serão necessários tipos como o Homem Criador para seguir as normas saudáveis e questionar o que não está certo no seu meio social.

Teoria de Robert K. Merton: Este pesquisador observou o problema da anomia sob uma perspectiva diferente da de Durkheim. Como vimos, para Durkheim, a anomia se deve ao enfraquecimento dos vínculos que ligam o indivíduo à sociedade, incapacitando-o de internalizar as normas coletivas. Merton acha que a anomia se deve ao fato de as pessoas não conseguirem atingir as metas estabelecidas pela sociedade. As sociedades ocidentais valorizam o sucesso material, mas não garantem os meios necessários para se atingir esse objetivo, pelo menos à maioria das pessoas.

No Brasil, um trabalhador que ganha o salário mínimo dificilmente poderá comprar casa, carro e dispor de boa qualidade de vida para si e para sua família. Impossibilitada de atingir seus objetivos, a pessoa tenta outras saídas, como por exemplo ficar rico por meios desonestos. Se a pessoa é um fracasso do ponto de vista financeiro, mas possui uma personalidade recheada de valores éticos, poderá ainda seguir dois caminhos: desistir de tudo e virar uma espécie de vagabundo ou se transformar em um revolucionário.

Em seu trabalho, Merton estabelece que a melhor maneira de evitar o desvio social é criar uma sociedade em que as oportunidades sejam acessíveis a todos, e também diminuir a pressão exercida sobre as pessoas no que se refere à necessidade de se obter o sucesso financeiro, acima de qualquer outro valor.

4) Desvio positivo

Como foi dito no início da unidade, o desvio social pode ser entendido como um fator positivo, muito embora isso aconteça mais como exceção do que como regra. As transformações sociais não ocorrem por obra dos conformistas, das pessoas que sempre seguem as regras pré-estabelecidas, mas sim pelos inconformados, rebeldes, aqueles que pensam que determinadas formas de agir não são justas ou que devem ser melhoradas. Foram os inconformados que lutaram pela independência do Brasil, protestaram contra a escravidão, aboliram a monarquia e, mais recentemente, lutaram contra a ditadura militar.

Atribuir aspectos negativos ou positivos ao desvio depende do ponto de vista de quem os observa. A Inconfidência Mineira foi tachada pelos portugueses como movimento ultrajante, liderado por um desajustado que deveria ser punido exemplarmente; os brasileiros viram a revolta de Tiradentes como causa justa e símbolo do patriotismo da nova nação. Pessoas que reagem com atos de sabotagem a uma ocupação militar de seu próprio país são rotuladas de terroristas pela potência que exerce a ocupação, mas são vistas como heróis pelo povo do país ocupado.

Nas questões de 1 a 14 assinale a alternativa correta.

1) Ocorre desvio social quando:

a) uma pessoa faz uma caridade.
b) alguém fala mal do presidente da República.
c) a ação do individuo não corresponde às expectativas de sua cultura.
d) ações pessoais coadunam com a cultura coletiva.

2) A causa do desvio é uma questão:

a) sociológica.
b) psicológica.
c) histórica.
d) psicológica e sociológica (psicossocial).

3) O desvio social:

a) é sempre negativo.
b) é sempre positivo.
c) neutro.
d) pode ser negativo ou positivo.

4) Desvio primário é:

a) ato de extrema gravidade.
b) ato não totalmente correto, mas tolerado socialmente.
c) o mesmo que crime.
d) ato que não é tolerado socialmente.

5) Exemplo de desvio primário é:

a) subtrair um lápis da repartição pública.
b) matar um pássaro em uma reserva florestal.
c) promover manifestação pública sem autorização das autoridades competentes.
d) dirigir embriagado e provocar um acidente.

6) Desvio secundário é:

a) conduta taxada publicamente como algo anormal.
b) desvio cometido logo após o primário.
c) o cometido pelo desviado reincidente.
d) o mesmo que crime inafiançável.

7) Exemplo de desvio secundário é:

a) jogar futebol em um campo baldio.
b) pisar na grama de um jardim público.
c) fazer uma piada de mau gosto sobre o chefe.
d) roubar um carro importado.

8) Desvio individual é:

a) o mesmo que desvio pessoal.
b) desvio singular.
c) atitude de uma pessoa que foge das expectativas de sua subcultura.
d) atitude individual que corresponde à sua cultura coletiva.

9) Desvio grupal é:

a) o mesmo que crime coletivo.
b) quando as condições sociais de um local influenciam no comportamento de uma comunidade.
c) fuga das condições coletivas desfavoráveis.
d) um conjunto de desvios individuais.

10) Lombroso e Sheldon estabeleceram teorias em que:

a) relacionam o crime às condições sociais.
b) relacionam o crime a questões econômicas.
c) relacionam o crime ao tipo físico da pessoa.
d) relacionam o crime à falta de religião.

11) Anomia significa:

a) excesso de normas.
b) o mesmo que anomalia.
c) ausência de normas.
d) normas injustas.

12) Para Durkheim, anomia significa:

a) que as normas são maléficas.
b) que as normas são indiferentes em uma situação social.
c) incapacidade do individuo de internalizar as normas de uma sociedade.
d) o mesmo que harmonia.

13) A teoria de W. Thomas se relaciona com:

a) o pessimismo social.
b) questões religiosas.
c) conformidade e não conformidade.
d) questões ideológicas.

14) A idéia básica de Robert Merton é que:

a) a sociedade estimula o indivíduo a alcançar metas, mas não lhe fornece os meios para atingi-las.
b) as pessoas são frustradas.
c) a rebeldia é causada pela frustração dos pobres.
d) toda revolta é inútil.

EXERCÍCIOS

1) O que é um desvio social?

2) Por que as pessoas se desviam de um comportamento estabelecido?

3) Dê exemplo de um atitude considerada normal no passado, mas que hoje é um desvio social.

4) Explique e dê exemplo de desvio primário.

5) Explique e de exemplo de desvio secundário.

6) O que é um desvio individual? Dê exemplos.

7) Explique a teoria de Cesare Lombroso.

8) Explique a teoria de W. Sheldon.

9) Explique a teoria de Durkhein sobre desvio social.

10) Diga o que você entendeu sobre a teoria de W. Thomas?

11) O que você entendeu sobre a teoria de Robert Merton?

12) Em que sentido o conceito de Merton se diferencia do conceito de Durkhein?

13) Explique e exemplifique um desvio social positivo.

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